Todos concordam que o financiamento de campanha, nos moldes atuais, acolhe maracutaias

O tema da reforma política que trate, exponencialmente, do financiamento de campanhas é igual ao tema do salário mínimo: todos concordam com o básico, mas ninguém faz quase nada para mudar. E tudo permanece como está.


Todos concordam que o salário mínimo, por ser mínimo, não satisfaz as necessidades básicas de uma família para viver com dignidade. Mas o reajuste do mínimo, há décadas, evolui muito aquém das aspirações de todos, independentemente de preferências e opções ideológicas. Todos concordam que o financiamento de campanha, nos moldes atuais, acolhe maracutaias de tal ordem que até a Justiça Eleitoral, em reiteradas manifestações, já se disse incapaz, sem estrutura, sem condições de evitar que inobservâncias legais - para não dizer crimes - sejam praticados por candidatos.

 

Mas o financiamento de campanha vem novamente à tona porque parlamentares, pela milésima vez, estão falando em tirar da gaveta a reforma política. Não são poucos os que defendem a implantação do financiamento público e, além disso, a criminalização do financiamento privado. Entendem os defensores dessa proposta que a moralização das contendas eleitorais começa no manuseio de recursos. E como o sistema atual permite que empresas privadas encham os caixas de legendas e candidatos, estaria aberta a porteira do caixa dois, um jeitinho criminoso que pode ter sido reduzido, mas jamais será eliminado. É um exagero, todavia, considerar-se que a irrigação dos cofres partidários por dinheiro privado é a fonte de todos os defeitos, todos os crimes, todos os ilicitos que ocorrem durante as campanhas.

 

Os partidos pensam assim porque não olham para si mesmos, não olham para os próprios umbigos. Se o fizessem, poderiam vislumbrar mais facilmente práticas e hábitos dos mais tenebrosos, que repercutem inevitavelmente no jeito de fazer política no Brasil. As legendas partidárias não estão minimamente empenhadas em depurar-se. Independentemente de exigências legais, não procuram estabelecer critérios razoáveis para recepcionar novos quadros, novos filiados, que estarão em condições de disputar cargos eletivos.


Partidos políticos, no Brasil, querem mais é saber de votos. Não importa a qualidade de seus candidatos, mas o potencial de sufrágios que eles poderão alcançar nas urnas. Partidos políticos não estão nem um pouco preocupados em passar a vida pregressa de seus filiados sob a peneira. Não querem saber se A, B ou C detêm qualidades morais mínimas para aspirar a um mandato eletivo. Resultado: prefeitos no interior do Nordeste já foram eleitos enquanto se encontravam presos sob acusação de crimes vários. Agremiações partidárias não conferem a menor prevalência à discussão prévia de ideias, que poderiam embasar os programas que vão apresentar durante as campanhas eleitorais. Resultado: o que mais se vê são representantes partidários discutindo o mesmo tema de maneiras colidentes, em contraposição não apenas entre eles próprios, mas em relação ao partido a que pertencem.


As campanhas eleitorais, nesse sentido, transformam-se numa terra de ninguém, que se torna palco para o desfile de personagens que se põem a proclamar discursos sem a menor afinidade com anseios da ampla maioria da população. O que tem isso a ver com o financiamento de campanhas? Nada. Absolutamente nada. Não se diga, mesmo assim, que esse tema não seja dos mais relevante na discussão da pretendida reforma política.

É evidente que todos precisam discutir alternativas moralizadoras relativas ao financiamento de campanhas. Mas isso não se pode ser feito em meio a exibicionismos verbais e excessos que acabam por desviar o foco dos debates para o âmbito das inutilidades, que jamais poderão contribuir para aperfeiçoar o sistema político-partidário no país.


Fonte: O Liberal