Estou trabalhando na conclusão de um livro e, por isso, aproveitando o feriadão para escrever. Não pude deixar, também, de me comunicar com pessoas que estão me mandando depoimentos interessantíssimos. Um deles publiquei na minha página no Facebook ontem (www.facebook.com/marlon.reis).
Hoje um jovem me informou que em certa cidade interiorana do Maranhão estava prevista uma grande passeata, daquelas reforçadas, com fogos de artifício e tudo o que manda o figurino. O objetivo era comemorar a possível declaração de inconstitucionalidade da Lei da Ficha Limpa.
Proclamado o resultado da sessão pelo STF, o pré-candidato desarmou o espetáculo e desapareceu do circuito.
Há algo de muito curioso nisso. Quando eu era estudante da UFMA me envolvi como voluntário na campanha de uma candidata ao governo lançada por partidos de esquerda. O ano era 1990 e a pessoa apoiada chamava-se Conceição Andrade. Época em que a juventude acreditava mais nos partidos políticos.
Saí com o candidato a vice, o amigo Neudson Claudino, e outros voluntários por algumas cidades de certa região do Maranhão. Almoçávamos no mercado e a sobremesa era rapadura. As verbas de campanha não davam para mais.
Numa dessas cidades aconteceu um fato que marcaria minha vida. Visitando um bairro paupérrimo, todo formado por casas de taipa, deparei-me com uma dona de casa que, apenas entreabrindo a porta, foi logo perguntando: “E cadê o dinheiro?”. Respondi que não estávamos ali para ofecer vantagens pessoais, que a campanha era baseada em ideias e que queríamos simplesmente conversar sobre as propostas da candidata. Mas a moradora respondeu: “Fulano nos disse que só é para receber panfleto de quem der mais dinheiro do que ele”. E bateu a porta na minha cara, agressivamente.
Claro que me incomodei com o fato. Não com aquela senhora, obviamente, mais vítima do que qualquer outra coisa. Fiqui chocado com esse testemunho de miséria e usurpação política. Essa memória me incomodou por muitos anos e se constituiu na minha maior motivação para eu haver participado da criação, doze anos depois, do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral.
O caso é que a Lei de Ficha Limpa, que acabamos de conquistar, alcançará o tal político que havia dado a tal orientação àquela senhora. Foi exatamente ele quem teve que desarmar a passeata e encarar o fantasma da inelegibilidade.
É. O mundo dá voltas.
